quarta-feira, 18 de julho de 2012

Diário de viagem | As aventuras de um publicitário disfarçado de turista


Continuação do post anterior. 

(VALLE NEVADO, CHILE) Não costumo me impressionar, com nada, nada mesmo. Talvez, se dois Jumbos 747 colidissem em pleno voo e eu estivesse por perto, vendo tudo de camarote, talvez sim, ficasse impressionado. Primeiro, porque tenho certa adoração por Jumbos, tanto que sempre discuto com meu pai a confiabilidade deles perante a tecnologia coxinha da Airbus. Segundo, porque aviões não saem por aí de espatifando um no outro, seria algo que não se vê todo dia. Mas, naquela sexta-feira chuvosa eu estava prestes a ficar bastante impressionado com o que estava por vir.

Era o meu 9º dia em solo chileno e finalmente havia chegado a hora de conquistar a terrível Cordilheira dos Andes. Acordei cedo, bem cedo, não era para menos, estava ansioso. A promessa de afundar os pés na neve me fazia não pensar em mais nada. Preparei meu café da manhã com destreza, café esse que incluía um pão bastante peculiar, queijo, mostarda apimentada, salame, manteiga e muito "jamón acaramelado".

Não posso continuar sem falar um pouco melhor do tal jamón acamelado. Para quem não sabe, ou não estudou na Dynamic's School, "jamón", em espanhol, é presunto, e "acaramelado" é... acaramelado. Só Deus sabe a maravilha que é esse pedaço de carne de pavão, meio preta, meio estragada, mas incrivelmente saborosa. Quando vi no balcão de um mini-mercado logo no primeiro dia, não tive dúvidas, pedi duas fatias só pra saber qual é. Comi com certo receio e fiquei encantado (ui!). No dia seguinte, voltei ao armazém e comprei todo o estoque do dia. Nada mais importava, queria comer todo o jamón acaramelado que conseguisse. Uma maravilha gastronômica que deveria ser compartilhada com o resto do planeta, sem sombra de dúvidas. Por isso, se eu pudesse dar apenas um conselho sobre o futuro, seria: quando for ao Chile, coma todo o jamón acaramelado que encontrar pela frente.

Retomando. Farto de tanto presunto preto, deixei o hotel e rumei para o leste, pegaria um micro-ônibus não muito longe dali, dava para ir a pé e apreciar a beleza do Parque Forestal. A Turistik, que é a principal empresa turística da cidade, iria me levar junto com outros aventureiros ao que chamam de a maior estação de esqui da América Latina. E como falam isso, que estávamos indo para a maior estação de esqui de toda a parte latina da América. Por que as pessoas têm essa mania de dizer que as coisas só são boas quando são as maiores da América Latina, ou das Américas, ou do Hemisfério Sul, ou do lado ocidental do mundo, e claro, do próprio mundo. Será que não basta ser legal sem ser maior que todas as demais?




Valle Nevado - a maior estação de esqui da América Latina - ficava a pouco mais de 40 quilômetros da capital daquele país. E o que é muito perto para os padrões normais, torna-se longe pra diabo se contarmos a distância em curvas. São 161 no total, sendo que 40 delas formam ângulos de 180º. Isso faz com que a distância seja percorrida em não menos de 1 hora e 45 minutos. Não é para menos, são quase 3 mil metros de altura que separam o ponto A, Santiago, do ponto B, Valle Nevado - a maior estação de esqui da América Latina. Almofadinha em viagens terrestres que sou, no terceiro cotovelo eu já estava verde de enjoo. Comecei a fuçar nas configurações da minha câmera fotográfica pra ver se melhorava, mas o enjoo só aumentou. Eu ia vomitar jamón acaramelado, era um fato.

Por sorte também sou um velho coiote na arte de não emporcalhar o ambiente onde estou, principalmente quando compartilho esse ambiente com outras pessoas. Pensei na Paloma de Oliveira posando para a Playboy, depois num vídeo engraçado que assistira dias antes no Youtube e assim fui driblando a náusea. Mas ainda faltavam 97 curvas, as plaquinhas na estrada iam me lembrando. Resolvi puxar conversa com os outros brasileiros, e quase todos estavam atentos à estrada e sua forma incrivelmente sinuosa. Entendi que deveria calar a minha boca e buscar outra forma de entretenimento.



A coisa começou a ficar interessante em determinado momento da subida, quando surgiram os primeiros sinais de gelo sobre o asfalto. Hugo, o motorista, parou o micro-ônibus e deu um berro à sua tripulação: CADENAS! A teacher Maria José lecionando nas salinhas acanhadas da Dynamic's School me veio à cabeça instantaneamente. Cadeiras? Cadeias? Cadernos? Correntes! Claro, era hora de instalar as correntes nos pneus daquele jerico motorizado.

Meia hora depois estávamos pronto para continuar a peregrinação rumo à maior estação de esqui da América Latina. O frio ia apertando a cada curva vencida, até que tudo ficasse branco, absolutamente branco, incrivelmente branco. Para quem nasceu com o nariz atolado na poeira, aquilo era o máximo. Costumo dizer que frio nunca é demais, mas só falo isso quando discuto com garotas friorentas sobre a temperatura do ar condicionado em Cuiabá. Ali, nos Andes, eu passei a me questionar sobre essa afirmação. Estava muito frio, ventava forte, e então começou a nevar. Hugo olhou para o guia turístico e ambos fizeram semblantes estranhos, franzindo as testas, e então o motorista soltou um "logo nesse ponto da estrada, que azar!". Não tenho certeza, mas acho que me borrei um pouco nessa hora.


A nevasca aumentava conforme íamos subindo vagarosamente, percebi que guia e motorista cochichavam, estavam discordando em alguma coisa. Certamente um queria voltar e o outro queria continuar. O clima dentro do ônibus também ia mudando, cada vez o oba-oba inerente às caravanas turísticas ia dando lugar à uma tensão silenciosa. A neve batia contra as janelas e fazia um barulho desagradável, de repente não se podia ver mais nada do lado de fora. Hugo foi diminuindo ainda mais a velocidade, que já era lenta. E o vento aumentava. De repente, um estrondo seguido de um solavanco. Todos de olhos arregalados perguntaram-se: o que diabos está acontecendo aqui? Ninguém sabia direito, todos procuravam uma resposta nas expressões faciais de Hugo, que continuava guiando como se nada de anormal estivesse acontecendo. Talvez fosse mesmo um sinal que aqueles trancos fossem mesmo normais, ainda que na prática fosse de gelar a espinha.

Avançamos mais três curvas e a situação ficou bem perto de caótica, o ônibus parou, não subia apesar do giro do motor sinalizar o contrário. Como uma mula empacada o carro se recusava a avançar, mas Hugo era insistente. Com o semblante ainda tranquilo ele duelava com o câmbio de fabricação germânica. Pelo menos imagino que era, tinha uma bandeirinha da Alemanha em relevo naquele calombo usado para a troca de marchas. Começamos a patinar e segundos depois a a traseira passou a ir de um lado para o outro, dançando no gelo. Lembrei de um quadro do Domingão do Faustão, e assim como o programa dominical, aquilo não tinha graça nenhuma. Todos estavam paralisados, tentando evitar o medo daquela merda despencar morro abaixo. Um cheiro de embreagem queimando tomou conta do lugar, mas ninguém falava nada, não sei se falar ajudaria em alguma coisa. Os únicos sons eram o assovio do vento gelado da Cordilheira e o motor sendo castigado pelos comandos agressivos de Hugo. E então o motor apagou. Não, aquilo não era nada bom.


Hugo levantou-se, olhou para todos nós, abriu a porta do micro-ônibus, desceu no meio da tempestade de neve e nunca mais foi visto. Pelo menos, não por mim. Estávamos no meio do gelo e ficamos sem chofer. O guia, Guilherme (não tinha me tocado na aliteração) pediu a palavra e mandou um portunhol sofrível: Calma, pessoal. Eu tenho habilitação para dirigir esta coisa. E então mostrou de relance a sua carteira com um documento com foto. Aquilo podia ser qualquer coisa, pensei, desde o RG chileno até a carteirinha de cliente da Blockbuster. Preferimos acreditar que tratava-se de uma habilitação especial para dirigir veículos de grande porte em uma das estradas mais perigosas do mundo. Mas, o que houve com o motorista? Perguntaram todos em uníssono. Então Guilherme finalmente quebrou o silêncio e deixou todos a par da situação.

- Atenção, pessoal. Perdemos uma das correntes traseiras, não vamos conseguir subir, nem descer, nem nada. Estamos ilhados e sem sinal de celular. A tempestade está aumentando. A boa notícia é que não tem como piorar. - Ninguém riu, então ele continuou - Hugo foi tentar achar a corrente. Fiquem calmos. Tudo vai ficar bem. Acreditem.

Em situações assim eu sempre fico calmo. Nada mais me vem à mente além de pensar que aquilo pode render uma boa história para contar - gosto de contar histórias. Lembro quando eu e seis amigos fomos assaltados enquanto jogávamos truco. Foi na época da faculdade, os meliantes entraram na nossa república, nos amordaçaram e trancaram todos em um porão fedorento. Eu só pensava na história rica em detalhes que aquilo tudo iria gerar. É uma boa técnica para não entrar em pânico. A questão é que nunca me preocupo demais, a menos que eu leve um tiro, perca a consciência ou, pior, perca a dignidade (vocês entenderam o que eu quis dizer). Faz parte daquela coisa de nunca me impressionar com nada.

Mas eu era o único ali que deveria pensar assim, porque todos estavam exageradamente aflitos com a situação. A nossa esperança de sair dali era confiar na habilidade de um motorista em encontrar uma corrente perdida no meio de uma forte nevasca.

Mais de 40 minutos se passaram e nada do maldito motorista. Haviam crianças a bordo, que queriam brincar na neve. Que estúpidas! Pensei. Não estão vendo que está um inferno lá fora? Mas elas foram, e outros adultos também - todos suicidas. Fiquei para não abandonar o barco, o que se mostrou uma decisão bem acertada minutos depois.

Uma van desgovernada, com as portas abertas e sem ninguém dentro descia rodando na pista contrária. Era uma catástrofe iminente, ou ela se chocaria no ônibus onde eu estava e cairíamos na ribanceira ou ela atropelaria todos os que estavam do lado de fora e cairia igualmente na ribanceira. Existem muitos estudos científicos que tentam explicar o que acontece com o corpo humano quando presenciam uma tragédia in loco. A descarga de adrenalina, a dilatação da pupila, o aumento da pressão arterial, há uma reação para cada tipo de pessoa. Em mim, dá vontade de fazer o número 2. É instantâneo! Mas eu não tinha tempo para isso, a minha prioridade era sair da alça de mira de uma van desgovernada cordilheira abaixo.



Sai para o lado e ela passou bem perto de mim. Corri atrás, não sei bem porque fiz aquilo, era de uma idiotice sem tamanho, eu também podia não conseguir parar. Mas eu queria ver a van arrebentando o guard rail, voar para a morte e terminar numa grande bola de fogo. Igual aos filmes do Jackie Chan. Mas, por sorte, o que não falta nesse mundo é gente maluca. E um deles conseguiu pular dentro da van e jogá-la contra uma parede de neve. De maluco virou herói, ainda que tenha se arriscado por um monte de lata, que, certamente, tinha uma boa apólice de seguro prevendo essas coisas.

A possibilidade de mais vans virem em nossa direção amedrontou alguns e gerou ira em outros. Já tinha virado palhaçada, foi o que questionavam os mais efusivos. E quando quase todos já tinham perdido as esperanças de chegar a Valle Nevado naquele dia, chega a corrente salvadora. Um outro ônibus da Turistik nos socorreu emprestando uma de suas correntes reservas. Era a salvação, mas ainda precisávamos de um motorista. Sem opções, vai o guia e sua carteirinha da Blockbuster mesmo.

Poucas curvas depois chegamos ao destino. Uma viagem que levou quase 4 horas e cheia de emoção foi recompensada por um lugar privilegiado. Valle Nevado merece toda a fama que tem. Estrutura impecável, pistas de esqui para todos os níveis de dificuldade e uma paisagem cinematográfica. Woody Allen deveria filmar ali qualquer dia desses, se é que já não filmou. Passei o resto do dia conhecendo cada detalhe do lugar, conversando com gente de todos os cantos do Brasil – sim, tem muito brasileiro por lá, somos uma praga.


O Chile é mesmo um país fantástico. O chilenos, em alguns pontos, se assemelham muito aos brasileiros. Gostam de futebol, são hospitaleiros ao extremo, se preocupam em falar a língua dos forasteiros, orgulham-se do seus país quando alguém de fora o elogia, mas não perde o hábito de criticá-lo quando não tem ninguém por perto. Por incontáveis motivos, tudo o que posso dizer para fechar esse meu diário de viagem sobre o Chile é: um país, deveras, exquisito.

| Fim.

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