terça-feira, 10 de julho de 2012

Diário de viagem | As aventuras de um publicitário disfarçado de turista


| Continuação do post anterior.

(SANTIAGO, CHILE) Não sei se aqui é o lugar mais indicado para expor isso, mas eu sinto que devo exteriorizar uma coisa que se evidenciou nessa minha viagem. Se todos que estão lendo isso estivessem aqui, ao meu lado, pediria que fizessem um semi-círculo, iria até o centro e faria uso da palavra para dizer que parei de beber há três anos e que a minha vida melhorou muito depois disso tenho um pouco de vergonha de ser brasileiro. Notou? Eu disse que é só um pouco, e não, muita vergonha. Vou explicar o porquê.

O brasileiro, salvo as raríssimas exceções, é um povo que consegue ser simpático e bem humorado em um minuto, e no seguinte ser de uma deselegância assombrosa. Além disso são sistematicamente mal educados e estúpidos com algum nativo do país que estão visitando. Não pense que eu gosto de dizer isso, mas é fácil apontar um grupo de brasileiros no meio a uma multidão de turistas. São barulhentos, falam besteira com a mesma naturalidade com que respiram, sentem-se mais espertos que todos a sua volta e, em alguns casos menos comuns, são desonestos - mesmo nas mais insignificantes situações. Um povo detestável, diria sem medo de exagerar na crítica.

Percebi tudo isso enquanto dividia com os meus compatriotas os principais pontos de interesse dos que visitam Santiago. Em todos os museus, parques, vinícolas e restaurantes que fui, topei com brasileiros e suas idiossincrasias. E em todas as vezes flagrei atitudes que me fizeram compor esse raciocínio (tá certo dizer que um raciocínio foi composto?). Quando visitei o Coliseu, em Roma, peguei uma fila quilométrica, fiquei lá por quase duas horas, com representantes de todas as partes desse mundão bagunçado de Deus. Foi nesse dia que passei a observar o comportamento das pessoas com mais critério. Reparei que os italianos também falam alto, e nunca se sabe se estão brigando ou discutindo futebol – normalmente estão discutindo futebol. “Cazzo” e “Andare in bestia” são as palavras mais ouvidas num diálogo comum. Os dedos juntos apontando para cima demonstram alguma contrariedade, mas essa já é a sua marca registrada. Os russos cheiram a vodka, não há nada mais que se possa dizer sobre eles. Os argentinos são cabeludos e falam rápido, as argentinas têm rosto quadrado e se acham mais bonitas do que as inglesas. Os americanos, norte-americanos ou estadunidenses, são, na maioria das vezes, adolescentes ou sexagenários. Imagino que são as exceções de um povo que não faz a menor ideia que existe um mundo além das fronteiras da América. Nunca entendi bem porque eles têm essa mania de chamar seu país pelo nome do continente. Os americanos, norte-americanos ou estadunidenses são uma sub-categoria de brasileiros, a diferença é que eles têm um sério problema com seus complexos de superioridade. Os franceses são gays, digo, felizes. Magros e bem vestidos, os nascidos na França gostam de dar informação turística em qualquer país que não seja o deles. Os austríacos, bem, não faço a menor ideia de como sejam os austríacos, nunca vi um de perto. Mas imagino que sejam parecidos com os eslovacos e húngaros - povos que eu igualmente desconheço. Voltando à vergonha que sinto pelos naturais do Brasil, tenho a sorte de ter nascido com essa cara de canadense bocó misturado com turco ranzinza, e posso me fazer passar por outra nacionalidade quando alguma situação embaraçosa se apresente.

Isso devidamente dito em dois parágrafos pequenos e um bem grande, falemos um pouco da peculiaridade que é o mapa do Chile. Você cruza o país de leste a oeste de carro em menos de duas horas, e foi exatamente o que fiz quando decidi que conheceria o meu terceiro oceano. Tenho muitos planos, um deles é que conhecerei, até o evento do meu funeral, todos os países, mares, oceanos, vulcões e desertos do globo terrestre. "Irei longe, se as circunstâncias permitirem". Viu só como eu consigo citar Napoleão Bonaparte em algumas situações?

Acordei muito cedo naquela quinta-feira fria de inverno, estava ansioso para conhecer o Pacífico. Gosto de riscar nomes em minhas listas, e Valparaíso, Viña del Mar e, claro, o oceano que banha aquela tripa de país, eram as bolas da vez (?). Uma van da empresa que contratei me pegaria no hotel às 8h15. Eu, com a pontualidade britânica que tanto me orgulho, estava em frente ao hotel quando os ponteiros do meu celular diziam que haviam se passado 15 minutos das 8 horas. Mas a Besta, o modelo do automóvel, não o motorista, passou as 9h10. Fiquei puto, como sempre fico com qualquer tipo de atraso, sou um inglês de araque, xinguei a besta, dessa vez sim, o motorista. Mas acho que ele não entendeu, já que o fiz em português mesmo, com meu inconfundível sotaque de mato-grossense interiorano. Entrei na van resmungando e saí em busca de um assento livre. Mas, para minha nova surpresa, não tinha assento livre, e todos me olhavam com semblantes sérios. Fiquei mais puto ainda, eu não era o culpado, pelo menos achava que não.

 Vamos às legendas: acima, quando não sou el sorpreendente hombre-araña. Um pouco mais abaixo, eu com cara de paisagem riscando o Pacífico da minha lista de oceanos a conhecer. Bem lá em cima, uma placa idiota, eu tomando um mocha no Starbucks e a frase del día - do popular pub santiaguino "The Clinic".

Como me considero um verdadeiro mestre em disfarçar as minhas emoções, voltei à boleia para falar com o motorista. Disse-lhe, em tom cordial, que a empresa na qual ele trabalha é uma bosta, que onde já se viu deixar o cliente esperando naquele frio dos diabos por quase uma hora. Que exigiria meu dinheiro de volta, que falaria com a embaixada e mandaria deportar o Valdívia do Brasil, que enviaria um telegrama hostil ao Sebastián Piñera, que, que, que... E então eu olhei para o dedo indicador do motorista que apontava para a frente do micro-ônibus. Eu estava na van errada.

Uma dica: antes de chamar alguém de idiota, certifique-se se o idiota não é você. E se você for brasileiro, certifique-se duas vezes.

| Continua no próximo post.

0 comentários: