segunda-feira, 11 de junho de 2012

A ignorância NÃO é uma bênção

Luís da Câmara Cascudo disse certa vez que o melhor do Brasil é o brasileiro. Uma frase de efeito, claro. Virou até slogan publicitário, se não me falhe a memória. Mas quer saber? O melhor do Brasil está muito longe de ser o brasileiro, todos deveriam entender isso de uma vez por todas. Na realidade, o brasileiro é o pior do Brasil, uma cruz a ser carregada por toda a história. Acho que já disse isso aqui algumas vezes, mas nunca é demais relembrar esse ponto de vista. Como diria um tio  meio esquizofrênico por quem sempre tive muita afinidade: vamos concatenar as ideias. E se prepare, será um daqueles posts longos e chatos. Se quiser abandonar a leitura, o momento é esse.

Existe um filme, uma comédia aparentemente ingênua, que transmite uma mensagem absurdamente coerente por trás. Me refiro a Idiocracy, de 2006, dirigido por Mike Judge e estrelado por Luke Wilson e Maya Rudolph (trailer aqui). Bem resumidamente, o filme projeta uma civilização burra num futuro distante. Ok, preciso explicar isso melhor. Para quem não assistiu, já que o filme teve um orçamento curto e problemas de distribuição, os dois personagens principais se inscreveram para um experimento militar de hibernação. Após uma crise financeira o projeto foi esquecido e eles acabaram despertando 500 anos no futuro.



Os dois, imaginando que hibernaram por apenas um ano, ficam desorientados ao se depararem com um mundo completamente diferente, numa distopia gerada pelo marketing, consumismo e anti-intelectualismo cultural. Em outras palavras, eles perceberam rapidamente que aquele estilo de vida de cinco séculos atrás resultou - a posteriori - numa sociedade humana uniformemente estúpida. Daí o título Idiocracy, um ótimo neologismo, diga-se de passagem. Seria só mais um filme trash sem muito valor se não provocasse uma enorme reflexão nos mais atentos (me considero um atento quando estão questionando o futuro da minha espécie).

Os 500 anos não são por acaso, está lá para que a mudança não seja brusca o suficiente a ponto de alguém perceber o rumo que as coisas estão tomando. Além disso, o cenário que o filme retrata é marcado, obviamente, pela vulgaridade - tão inerente ao ser humano. É uma sociedade que não sabe o que fazer com o lixo das grandes cidades, muito menos como conseguir irrigar uma plantação. O que também não é por acaso, nada é por acaso. E no meio de toda essa ignorância dominante o presidente dos Estados Unidos é um ator pornô e campeão de luta livre - talvez o personagem mais importante do filme.



O programa de televisão favorito do público se chama “Oh! My Balls!” onde o protagonista é acertado no saco repetidas vezes. O filme campeão de bilheteria se chama “Ass”, que é simplesmente 90 minutos de uma bunda flatulenta. Muito mais do que uma simples crítica ao detestável e popular humor-de-banheiro. E como se não bastasse, até os jornais se fundem com revistas pornográficas. Como podem ver, o entretenimento do futuro é assustador - e não estou me limitando apenas à ficção em pauta.

Então eu pergunto: será que é exagero comparar o futuro de tudo o que existe com um humor negro de quinta? Seria, se a projeção não fosse a longo prazo. Mas, pelo amor de Darwin, vejam a intolerável futilidade que se tornou a pessoa comum, essa que escreve "vosse" ao invés de "você" e "mais" no lugar de "mas". A comunidade de gente descartável é imensa e não para de crescer. A pessoa comum não está muito longe dos personagens fictícios de Idiocracy, e talvez nem seja preciso esperar por 500 anos.

Mas, voltando à citação do historiador lá no começo do texto, vamos ao cerne da coisa toda.

Eu selecionei dois vídeos no Youtube para exemplificar o que estou tentando dizer nesse punhado de parágrafos. Basta clicar sobre as imagens para assistir. É importante que reparem no número de visualizações de cada um. O primeiro vídeo é o discurso em plenário de um senador da República. Ele fala de passado e presente em perfeita sincronia, convida as pessoas a conhecerem mais a fundo a história de um herói nacional e se inteirar do atual cenário político - ótimo para quem não pretende morrer no ostracismo cultural. O vídeo teve 135 visualizações.


O outro vídeo é uma pegadinha, uma câmera escondida de um programa de auditório qualquer. Assim como o filme em cartaz em Idiocracy, apenas uma bunda é mostrada, e nada mais. O vídeo teve 44 milhões de visualizações.


Estamos falando de vídeos na Internet, algo muio mais raso que livros. É óbvio que não tem como entender a importância de Cândido Rondon apenas assistindo o primeiro vídeo. Um artigo da Wikipédia é apenas um resumo, apesar de parecer muito em um ambiente em que Saramago definiu como a antecâmara do grunhido. É a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. O resultado a longo prazo assusta, porque de degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido. A ignorância NÃO é uma bênção.

E caso alguém ainda esteja lendo, aí vai um último argumento. Repare em suas mãos, vê algo de anormal? Sabe dizer por que dedo mindinho é menor que os demais? Simples: porque é o dedo que menos usamos, desde os nossos ancestrais. Ele está vagarosamente atrofiando, geração após geração, e chegará um dia em que ele desaparecerá. Isso mesmo, teremos apenas quatro dedos em cada uma das mãos e isso continuará sendo normal.

Como disse, a mudança é assustadoramente lenta.

2 comentários:

Genilton Quintino disse...

Segue o link de um projeto que conta toda história do Cândido Rondon, http://candidorondon.com.br/

Anônimo disse...

a pegadinha é muito mais legal. tão legal que até parei de ler seu texto.