sexta-feira, 1 de junho de 2012

Clientes famintos e gemidos infantis no banheiro. O que vem depois disso?

Há algum tempo venho tentando entender por que algumas ações de guerrilha ganham mais notoriedade que outras, mesmo quando os recursos financeiros deveriam apontar o contrário. Me refiro aquelas ações que vão além de evidenciar um mero recado, mas sim colocar as pessoas dentro de experiências reais, ou, o mais próximo possível disso. Eu explico.

Os dois vídeos abaixo transmitem exatamente o que eu quero dizer. Em ambos, a imersão das pessoas no teor da mensagem é quase total, mas isso não chega a ser necessariamente bom. Já disse aqui algumas vezes que é natural que os consumidores fiquem menos sensíveis às mensagens tradicionais. Também pudera, tudo está on-line e o saldo disso é que ninguém mais se sensibiliza com o cartaz do recém-nascido desnutrido da Somália que implora por socorro. É preciso sentir na pele o que estamos querendo dizer.

Nem preciso tocar no velho ponto sobre o desenfreado bombardeio de informação, de qualquer informação, só para ser notado. Tá na cara que tem muita gente falando muita coisa o tempo inteiro, e a tal democratização da informação fez com que as pessoas naturalmente começassem a filtrar o que queriam ver, sentir e tocar. O resultado disso é que se o teor da mensagem não for polêmico, se não gerar ira, revolta, clímax, desejo compulsivo, surpresa, vai passar despercebido. É um fato. Nesse ambiente atual, a concorrência por atenção ganhou proporções catastróficas. Não é exagero, não gosto de exageros.

Isso devidamente dito, reparem no primeiro vídeo. Para lembrar os pais de seu papel na educação dos filhos em um mundo contaminado com tanta porcaria, a organização belga Opvoedingslijn criou uma campanha onde simula crianças fazendo sexo em um banheiro de um hotel de luxo. As pessoas escutam os gemidos e ficam perplexas com aquela situação constrangedora. Depois de um tempo as crianças deixam o local e na porta revela-se a mensagem: “Educar uma criança nem sempre é fácil, por isso existe a Opvoedingslijn”. A criação é da agência Duval Guillaume.



Voltando ao raciocínio, a pergunta que fica é: será que foi preciso chegar a esse ponto e envolver as próprias crianças para chamar a atenção? Sem dúvida, vale alguma reflexão sobre o que mais vem por aí.

O outro vídeo é de uma ação que aconteceu em Assunção, Paraguai. Para pedir que as pessoas ajudem a Fundação Banco de Alimentos, que cuida de crianças e idosos carentes que vivem em abrigos daquele país, foi criada uma ação em parceria com uma rede de pizzaria delivery da cidade. Depois que o cliente fazia o pedido da sua pizza, o entregador atrasava propositalmente e só aparecia com a pizza horas depois. Quando o motoboy finalmente chegava com a pizza, encontrava os clientes furiosos, e então entregava junto com a pizza um panfleto com a seguinte frase: “Quando você está com fome, entende a fome. Sua comida atrasou, mas para muitos ela nunca chega”.

1 comentários:

Gaby disse...

Sinceramente, fiquei chocada com a primeira ação. Além de ser completamente desnecessária para a venda do "produto", expõe crianças a uma situação em que elas nem ao menos deveriam ter conhecimento.

A segunda ação foi interessante pelo ponto de vista de marketing, entretanto uma falta de respeito com o cliente da tal pizzaria. Os resultados podem até ter aparecido e eu poderia até ter doado se fosse impactada, entretanto teria ficado com raiva do mesmo jeito.