quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Diário de viagem | As aventuras de um publicitário disfarçado de turista

 (Continuação do post anterior)
(Paris) 12/08
8h05 - Era só o segundo dia na capital francesa e eu já queria trocar de hotel. Não tinha engolido bem a ideia de um elevador com capacidade para apenas uma pessoa (uma pessoa magra, devo enaltecer). Como eu poderia confiar em um lugar assim? Depois de me irritar com um quarto minúsculo, convenci o grupo que deveríamos fazer um movimento migratório, ou seja, achar um hotel mais decente e com elevadores amplos. Sou barrigudo, ora bolas. E depois de encher o saco de todo mundo, meus pais e minha namorada finalmente concordaram com a minha campanha: - Tá bom, vai, arrume outro hotel de uma vez por todas. Então descobri que não trata-se de uma tarefa tão simples assim. Achar um hotel em Paris em plena alta temporada é quase como encontrar o escudo do Corinthians no troféu da Libertadores (Marina, essa foi pra você (o:).

9h10 -
Era um fato: nós não encontraríamos outro hotel naquele lugar, Paris estava repleta de turistas, 100 mil, mais precisamente. Não havia vaga nem por um decreto de Napoleão (caso Napoleão estivesse vivo, é claro). Então resolvi aceitar a situação e passar as noites em uma caixa de fósforo. E o mais curioso é que o hotel se chamava Ideal. Ideal pra quem, cara-pálida? Para o Nelson Ned?!

A prestigiada Champs-Élysées, que converge com outras 11 avenidas para o Arco do Triunfo.

9h30 - A programação do dia incluía sair da caixa de fósforo Ideal e conhecer o Arco do Triunfo. E como tudo naquele cidade, tinha uma linha de metrô ao lado do célebre arco. O nome da estação era Etoile Charles de Gaulle (mania de batizar tudo com esse nome). Chegamos em menos de 10 minutos, e pra variar, estava lotado de turistas - turistas barulhentos e sensivelmente inconvenientes. Nem sou parisiense e em menos de 48 horas na cidade já estava incomodado com tanta gente. É fácil entender o mau humor dos nativos.

9h45 - Uma dica de ouro: ao visitar uma grande cidade europeia, use e abuse dos ônibus panorâmicos. O passe custa 26 euros e vale por dois dias seguidos. Você sobe nele e faz um city tour completo que dura cerca de duas horas. Em cada ponto interessante o motorista faz uma breve parada, você pode descer ou continuar a viagem. Caso opte em descer para conhecer aquele lugar, pode pegar o próximo ônibus com o mesmo bilhete. A cada 10 minutos passa um. Fantástico! Você economiza com transporte, caminha pouco e conhece com detalhes a história dos lugares, pois no ônibus há uma narração detalhada em vários idiomas, inclusive o português. A foto abaixa ilustra a coisa toda.

Eu e a minha garota preparando-se para o passeio.

12h - Antes de visitarmos o Museu do Louvre fomos até a ponte dos cadeados, que certamente tem um nome mais pomposo, mas eu só lembro dos cadeados. Imagino que há muito tempo atrás algum casal de namorados deve ter colocado um cadeado com seus nomes na ponte - essas metáforas de amor, sabe como é. Outro casal passou por ali, viu, gostou e fez o mesmo. E como a cidade é infestada de turistas, entre eles, casais de namorados, o resultado é uma ponte com 4 bilhões e 300 milhões de cadeados. Uma metáfora bem brega, diga-se de passagem. Minha namorada quis fazer o mesmo, mas eu fiquei com um certo receio. - Não, amor, vai que isso vira uma maldição. - falei - E pelo resto do dia ela não falou mais comigo.

Pelo menos economizei um cadeado.

13h39 - O Louvre, depois da imensa fila para entrar, é um lugar incrível. Para um amante dos livros de Dan Brown, aquilo foi um deleite. A fama de ser um museu enorme se justifica quando você se depara com o imenso mapa na entrada. Perito na arte de se perder, olhei para aquele enorme esquema de galerias e instintivamente pensei: se eu me perder aqui dentro, como faço pra sair?

14h16 - Para um estúpido em artes como eu, fiquei entediado depois que vi as obras mais famosas. A Mona Lisa e a Vênus de Milos, especialmente, foi o ápice do passeio, e imagino que eu não era o único. As salas onde elas estavam tinham a maior aglomeração de pessoas de todo o museu. Na sala onde estava exposta a popular obra de Da Vinci havia um esquema de fila para ver o quadro. Ao lado, uma regra bem clara: "não tire fotos com flash". Mas era como se estivesse escrito: "1.000 Euros para quem tirar o maior número de fotos com flash". Incrível como as pessoas não respeitam nada. Um mundo bem perdido, esse nosso.

14h36 - Pelos 28 quilômetros de galeria, devo ter visto menos de 5%, o que daria uns 5 Masp's, aproximadamente. Muito pouco, dada a grandiosidade daquele lugar. Se não tivesse tantas outras atrações para visitar naquela cidade, passaria o dia inteiro ali, mesmo sendo um estúpido em artes.

 Imagine um labirinto grande, muito grande, muito, muito grande. Imaginou? É o Louvre.

18h03 - Terminamos o passeio no ônibus panorâmico e voltamos para a caixa de fósforo. No caminho encontrei um cidadão bem curioso no metrô. Era um emblemático afro-descendente, de 50 anos, quase dois metros de altura, ostentava um avantajado penteado rastafari e vestia roupas destacadas. Um sujeito que jamais passaria despercebido em qualquer lugar. Era uma mistura perfeita de Toni Garrido, Tony Tornado e Bob Marley. Ele se sentou do meu lado e começou o diálogo em um inglês com forte sotaque francês:

- Tu é brasileiro, é?
- Sim, sou, como adivinhou?
- Hahahahaha. Você tem cara de brasileiro.
- E como é a cara de um brasileiro?
- Brasileiros não têm cara, quando você não consegue identificar de onde é aquela pessoa, logo sabe que trata-se de um brasileiro.
- Nesse caso, eu tenho cara de nada?
- Não. Só de brasileiro.
- Então me diga, quem é o brasileiro mais famoso do mundo?
- Tá brincando?
- Não, não estou. Quem é?
- Piilé, é claro!
- Pelé?
- Piiiiiiilé!!
- Mas tem o Ronaldinho.
- Runaldínho, no. Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiilé!!!!! Você conhece Pilé?
- Não.
- Que merda de brasileiro é você que não conhece o maior de todos?
- Para os argentinos, o maior de todos é Maradona.
- Maradona, não. Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiilé!!!!! Ainda não acredito que você não o conhece.
- Acho que você não entendeu, eu não o conheço pessoalmente, mas sei quem é.
- Não interessa, todo brasileiro deveria conhecer Pilé pessoalmente.
- Por que?
- Porque ele é Piiiiiiiiilé... Ouviu bem? Piiiiiiiiilé... Piiiiiiiiiiiiiiiilé... Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiilé...

18h19 - Por sorte chegou a minha estação e eu abandonei aquele papo de doidos. O sujeito falava de Pelé com um orgulho impressionante. Era como se Pelé tivesse criado a vida, o universo e tudo mais. Conforme ia me afastando do vagão do metrô podia ouvir o som abafado de seus gritos incessantes de Piiiiiiiilé, Piiiiiiiilé!

(Continua no próximo episódio).

3 comentários:

Anônimo disse...

Estou adorando ler sobre suas aventuras.... huahauhuah

Ismael disse...

Pô Luciano! Você deveria ter falado: Pessoalmente conheço apenas pileque!

Anônimo disse...

poxa Lu com tanta foto bonita vc colocou essa foto onde estou horrivel rs rs rs Cristina