segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Diário de viagem | As aventuras de um publicitário disfarçado de turista

(Continuação do post anterior)
(Milão) 11/08
7h32 - Era a manhã de um dos dias mais confusos da minha vida - e olha que eu já tive dias incrivelmente confusos. Eu precisava fazer cinco coisas especialmente difíceis, eram elas: 1, fazer o check-out, em italiano, no hotel em Milão; 2, buscar a máquina que estava presa (isso mesmo, carro em italiano é "máquina", e estacionado é "preso"). Meu carro não estava estacionado na garagem, ele estava preso na garagem; 3, encontrar o Aeroporto de Linate em menos de uma hora; 4, encontrar a garagem da Hertz dentro do aeroporto em menos de 1 hora; 5, não bater e/ou fazer nenhum cagada com a maledeta máquina.

10h30 - Fui mais ou menos bem até a terceira fase, mas a casa caiu quando eu encontrei de tudo, menos a desgraça da Hertz dentro do aeroporto. Tive que pagar relocação do carro por questão de minutos e quase perdi o voo para Paris. Se o aeroporto premiasse o idiota do mês, eu levaria fácil, teria uma plaquinha com a minha foto em algum lugar do saguão. Rodei por todos os metros quadrados daquele lugar, pedi informação para 15 pessoas e duas estátuas. Eu já estava me convencendo que aquela locadora não existia, e o Google Maps estava abusando da minha nobreza. Cheguei ao cúmulo de perguntar quatro vezes para o mesmo sujeito. E já que toquei no assunto, permita-me reproduzir os quatro diálogos que tive com aquele italiano que cuidava de uma pequena guarita. Era um italiano gordo, de 50 e poucos anos e aparentava estar naquele trabalho há muitos anos. Ele não era feliz. Seu bigode branco e avantajado me fazia lembrar de algum personagem do Pica-Pau, Leôncio, eu acho (não sou muito bom para lembrar os nomes dos personagens do Pica-Pau) .

Diálogo 1 (08h06):
Eu: Senhor, por favor, pode me informar onde fica a loja da Hertz? Preciso devolver esta máquina até as 9h30.
Italiano com cara de Leôncio: Está perdido? Compre um mapa, idiota!

Diálogo 2 (08h50):
Eu: Senhor, eu de novo, o idiota. Desculpe incomodar, mas já pedi informação para outras três pessoas e ninguém soube me orientar, só tenho mais 40 minutos para devolver o carro, digo, a máquina. Onde fica a Hertz?
Italiano com cara de Leôncio: Além de idiota, você é surdo? Mandei comprar um mapa.

Diálogo 3 (09h10):
Eu: Senhor, faltam 20 minutos e eu te dou 50 Euros se você me levar até a loja da Hertz.
Italiano com cara de Leôncio: Hahahahahahahhahahaha... espera um pouco, preciso respirar: hahahahahahahahahahahahaha.... hahahahahahahahahahahahaha....

Diálogo 4 (10h30):
Eu: Senhor, já perdi o prazo de entrega do carro, será que agora você pode me informar onde fica a Hertz?
Italiano com cara de Leôncio: É naquela placa amarela 50 metros à sua frente. Ta vendo como você é idiota?

Pelo menos eu economizei 50 Euros. Mas segui o conselho e comprei um mapa.

Se você reparar bem, eu tenho um pouco cara de idiota.

13h - Partimos para Paris via Alitália. Deixamos para trás uma cidade incrível, limpa, organizada e com incontáveis motivos para visitá-la novamente. Recomendo a todos que estão lendo esse diário que use Milão como base quando visitarem a Europa. Sua posição privilegiada permite que você vá há vários lugares e volte no mesmo dia. Como eu disse alguns posts atrás, o transporte público funciona naquele continente.

(Paris)
14h30 - Mais uma vez estou no monumental Aeroporto Charles De Gaulle, e mais uma vez vejo um Concorde exposto em uma espécie de memorial a céu aberto. Para apaixonados pela aviação como eu, o Concorde foi algo único na história iniciada por Santos Dumont. Um mito, diriam os franceses. Quem voasse na aeronave supersônica, além de chegar bem rápido aos seus destinos, tinha a sensação única de observar a envergadura da Terra. Você olhava pela janelinha, via um pouco do planeta azulado e o imenso breu do espaço - também não sei se era uma vista muito confortável. Até onde sei, e normalmente meus conhecimentos não vão muito longe, o Concorde voava a incríveis 60 mil pés de altura. Possuía uma velocidade de cruzeiro de Mach 2.04, alguma coisa próxima de 2.700 km/h. Isso é nove vezes mais rápido que um Fórmula 1 (gosto dessas comparações idiotas). O Concorde era tão especial, que nele não havia classe econômica, só primeira classe. E para encerrar o assunto Concorde, que diga-se de passagem, já está enchendo saco, apenas a Air France e British Airways operavam com o simpático avião. Não devia compensar manter um desses na frota, era só pra fazer graça mesmo. No total apenas 16 foram fabricados em seus 30 anos de existência. E para quem não sabe, um grave acidente em 2003 fez com que o modelo nunca mais ganhasse os céus. Uma pena, gostava do Concorde, apesar de nunca ter entrado em um.

Note as escadas na parte de trás do Concorde. É possível fazer um tour pela aeronave.

14h55 - O Charlles De Gaulle dista (esta palavra existe?) 30 e poucos quilômetros do centro da cidade, e eu não tinha ideia de como chegar lá. De táxi, pagaria o preço de um carro popular no Brasil, praticamente. De ônibus, levaria meses para achar a linha certa. Por sorte achei uma maquininha, existem maquininhas por toda a parte naquele país. Você vai tocando na tela e ela cospe bilhetes que resolvem a sua vida. A maquininha que eu encontrei dizia que eu deveria alimentá-la com 9 Euros para receber um bilhete de trem. Mania de trem, têm esses europeus.

15h39 - Depois das devidas baldeações/conexões entre trem e metrô, chego a tão sonhada estação Charles Michels - era o meu alvo. Pelos meus cálculos, se chegasse à Charles Michels, chegaria ao hotel. O Google Street View estava certo, a menos de 100 metros dali esta o Hotel Ideal, que por fora era lindo. Mas só por fora.

15h44 - Tudo o que o hotel em Milão tinha de bom, o de Paris tinha de ruim - uma grandeza inversamente proporcional, como diria algum físico. E o detalhe é que ele era até mais caro. Joseph era o recepcionista, um rapaz de 35 anos, estatura mediana, com uma educação exemplar - um rapaz bem polido, diria. Falava todos os idiomas da Europa, menos o português. A propósito, nessa viagem conclui que o português está para o europeu assim como o javanês está para o brasileiro. Quando pergunto se fala português, o receptor da mensagem normalmente se espanta com a pergunta. É como se dissessem: - Esse idioma ainda existe?

15h56 - Joseph me apresentou algo que eu pensei que não existisse em nenhum hotel do mundo: um elevador para apenas uma pessoa. Ah, sim, uma pessoa magra. Eu, que não me consigo gordo, apenas barrigudo, quase não entrei naquela arapuca. Deus! Éramos em quatro pessoas, tínhamos oito malas, e o elevador tinha 1 m². Chegar aos respectivos quartos no quinto andar foi uma verdadeira escalada ao Monte Branco.

16h25 - Assim que conquistei o cume, digo, o quarto, veio em mente o cronograma, eu precisava consultá-lo antes de prosseguir.

A torre fica vermelha no final do dia.

17h - Havia chegado a hora de conhecer a tal Torre Gustave Eiffel. Bom planejador que estava me tornando naquela viagem, pensei que o melhor momento para visitá-la seria no final do dia, assim veríamos o famoso acender das luzes. Segundo relatos, é uma boa coisa para se ver na vida. Caminhamos até o famoso ponto turístico, nós e toda a população daquele hemisfério, suspeitava. Brotava gente do chão conforme íamos nos aproximando da torre.Só Paris recebe 100 mil turistas por dia, tornando qualquer coisa um verdadeiro parto. Você precisa de muita paciência se quiser conhecer os grandes cartões postais da cidade.

Eu devia ter feito a barba, estraguei a foto. 

18h30 - Dedicamos o restante do dia para admirar a beleza de construção que era aquilo tudo, os pouco mais de 300 metros de ferro entrelaçado hipnotiza pela beleza singular. Belos jardins no entorno provavam a todo momento porque vale a pena conhecer aquele lugar. A Torre Eiffel é o símbolo mais proeminente da França e uma das estruturas mais reconhecidas no mundo, e por 40 anos manteve-se como o monumento mais alto do mundo. Para os mais leigos, apenas uma torre de rádio mais enjoada. Em frente a torre fica a Champ de Mars, uma imensa esplanada que convidava as pessoas a fazerem um romântico piquenique, tomar um espumante ou apenas serem atingidas por merda de pombo.

(Continua no próximo episódio).

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