terça-feira, 30 de agosto de 2011

Diário de viagem | As aventuras de um publicitário disfarçado de turista

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(Continuação do post anterior)
(Suíça) 10/08
7h45 - Não é todo dia que você acorda e diz: Ok, hoje eu vou dar um pulo na Suíça. E de fato, era só um pulo. Só Deus sabe como tudo é perto naquele continente. Eu estava na Itália e queria ir ao país dos chocolates, relógios e canivetes, peguei o carro e em menos de uma hora estava molhando os pés no Lago de Lugano. Aqui no Brasil, mais precisamente em Mato Grosso, se você estiver em Cuiabá e pensar: Ok, hoje eu vou dar um pulo no Chile. Você tem que comprar a passagem aérea para São Paulo, fazer escala em Campo Grande, Brasília, Curitiba, Fortaleza, Macapá, Brasília de novo, Goiânia, Porto Alegre e finalmente São Paulo. Depois pegar uma maldita conexão, e se você tiver sorte, espera por três horas em Cumbica para pegar um voo direto para o Chile. E 39 horas depois, você molha os pés em algum lago do Chile.

8h15 - Minha segunda ida à locadora Hertz foi bem diferente, eu estava vacinado, já era um velho coiote na arte de alugar carros em solo estrangeiro. Me aproximei do balcão e falei com uma italianinha muy simpática e atraente, lábios carnudos, olhos verdes, corpo malhado... (fiquem tranquilos, minha namorada não lê o blog, eu acho). Pedi um carro com GPS, que não fosse movido à diesel, que tivesse uma boa dirigibilidade, que o volante não fosse muito duro e que tivesse um bom espaço interno. Me deram um Lancia. Quem diabo compraria um Lancia?

8h39 - Saimos da garagem guiando aquela barata e mesmo com o navegador eletrônico, me perdi na primeira curva. Comecei a suspeitar que o problema de orientação era comigo. Parei o carro e digitei no GPS a palavra "Lugano". Lembrava do Google Maps, Lugano devia estar a menos de 80 quilômetros de Milão, eu não podia ser tão burro. Depois que configurei e segui as primeiras orientações da voz que se ouvia daquele aparelho, pensei: será que o GPS pensa que eu quero conhecer o zagueiro uruguaio e está me levando para a Turquia?

9h20 - Pouquíssimo tempo depois e eu já avistava a belíssima cidade de Lugano em um horizonte não muito distante, mas antes disso, tinha a fronteira entre Itália e Suíça. Imaginava que teria que rezar uma missa para conseguir mudar de país, que seria interrogado pela Interpol numa salinha escura, que fariam uma análise forense no meu passaporte para constatar a sua autenticidade, que colocariam detectores de mentira para saber se eu achava o Rafael Nadal melhor que Roger Federer. Ao invés disso, passei sem ser notado pelas autoridades suíças. Nem na Ponte da Amizade a coisa é tão liberada assim. Malditos filmes de ficção, pensei.

10h30 - O país é fantástico, mas admito que não tem muito o que fazer numa cidade como Lugano. É legal admirar a perfeição do lugar, e quando eu digo perfeição, quero dizer que não há defeitos, nenhunzinho. A cidade é uma verdadeira maquete, tudo incrivelmente impecável, beira o ridículo. E foi nesse cenário que eu resolvi praticar meu alemão. Cheguei numa lojinha de artesanato e falei com uma senhora de 80 anos: - Guten morgen! E ela respondeu por 3 minutos em um alemão extremamente amistoso. Foi incrível como eu não entendi absolutamente nada. Daí lembrei-me que "Guten morgen" era a única coisa que eu sabia daquele idioma. Me despedi falando "tchau" e fui fazer umas fotos do inspirador lago que adornava a cidade.

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Meus pais no Lago de Lugano, Suíça.

11h12 - Depois que apreciar a beleza de Lugano, a cidade, não o zagueiro, decidimos que era hora de rumar para os famosos Alpes Suíços. Então tentei simplificar e digitei no GPS: Alpes Suíços. "Nenhum destino encontrado", foi a resposta automática enviada pela geringonça. E agora? Como estávamos no extremo oeste do país, sabia que deveria seguir para o leste, e em algum momento cruzaria com os Alpes, afinal de contas, não seria nada difícil encontrar um punhado de montanhas com quase 5 mil metros de altura. Novamente pensei no Google Maps e lembrei que "Tirol" estava no coração dos Alpes Suíços, digitei o novo destino o GPS avisou: "siga 200 quilômetros para o leste." Rá, muleque!

13h40 - A estrada que serpenteia os Alpes deve ter sido feita em algum desses programas avançados de computador, um Mac, talvez. Algo impressionante para um cidadão acostumado com as estradas brasileiras. Túneis com quase 20 quilômetros de extensão, pontes que impressionam pelo desafio à engenharia e o melhor, nenhum buraco. Deveras, um lugar fascinante, esse que o Maluf escolheu. Pela rodovia estreita e recheada de curvas de até 180º ia me deparando com civilizações completamente diferentes de tudo o que eu conhecia até então. De vez em quando era ultrapassado por um comboio de 20 motociclistas da tribo Harley Davidson. Em outros momentos, topava com ciclistas profissionais treinando para alguma coisa. A Volta da França, suspeito.

14h06 - Chegamos ao cume, que no caso, tratava-se de uma taberna de um português boa praça que adorava conversar. Um lugar alto e frio, atingido constantemente pelo ar gélido do cume branco - a tal neve eterna. A temperatura era de 8º, mas havia sol e o céu era incrivelmente azul, C100, M20, Y0, K0, desconfiei. Caramba, como me chamou atenção o contraste do céu com a montanha branca. Por um momento pensei que haviam usado Photoshop naquela paisagem. E depois criticam a Playboy.

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Acima, o tal contraste que eu cito no texto. Abaixo, meus pais e este que vos posta.
Meu pai nunca sente frio, ele costuma dizer que agasalho é para os fracos
.


15h12 - O português, que devia se chamar Joaquim, ou Manuel, não gostava de Euros - era um fato. Quando fui pagar pelo meu espaguete ele disse: - O, pá, não tens aí Francos? E eu respondi: - Francamente? Só tenho Euros. Então ele disse que o Euro está decadente, vai acabar e tudo o que restará no mundo serão os Francos Suíços. Não o levei muito a sério, apenas elogiei o seu estabelecimento e concordei com a teoria. Enquanto saia ainda sobrou tempo para que ele me fizesse a última pergunta: - Tu vens de qual região do Brasil? - Mato Grosso, Cuiabá, Pantanal, Onça, Índio... - foi a resposta que dei enquanto guardava as minhas moedas de Euro.

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A taberna do Seu Manuel. Ou seria Joaquim?

17h45 - Na volta para Milão viemos contemplando toda aquela beleza de região e ouvindo uma rádio francesa. É impossível se cansar da paisagem. Pelo caminho, conclui que estamos muito longe de nos tornarmos um país de primeiro mundo. Me refiro a infraestrutura. Naturalmente, o Brasil é tão belo quanto a Suíça ou qualquer outro país, mas pagamos muito caro por tanta corrupção e descaso. É revoltante conhecer um país sério e perceber que o Brasil não aproveita o potencial que tem. Até que o Charles de Gaulle tinha alguma razão.

(Continua no próximo episódio).

4 comentários:

Aline Santos disse...

Muito empolgante a leitura, clara e divertida. Parabéns

Charles disse...

Tu é redator publicitário? Escreve muito bem.

Luciano Marino disse...

Obrigado, Charles. E a resposta é sim, sou membro honorário do nobre clube.
A propóstito, só para desencargo de consciência, seu sobrenome não é De Gaulle, é?!

Anônimo disse...

Parabens pelo texto bem redigido, ótima leitura, abs Anderson