quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Diário de viagem | As aventuras de um publicitário disfarçado de turista

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(Continuação do post anterior)
(Paris) 05/08
8h25 - Chego a Paris com a bunda quadrada. As poltronas não eram tão confortáveis assim, potencializado ainda pelo fato de eu não ter dormido um só minuto - não queria perder nenhum mimo oferecido pela simpática tripulação daquele voo. E tinha de tudo: frango, massas, vinho tinto, vinho branco, doces, sorvetes... Santo Deus! Como eu comi naquele avião! Fiz valer meus pobres reais naquele banquete voador, acho até que dei prejuízo. Assim que pousamos as mensagens multilíngues ouvidas nos sistemas de som da aeronave diziam que tínhamos acabado de chegar ao monumental Aeroporto Charles de Gaulle. Na hora não tinha nenhum Google por perto, mas tinha a impressão que esse tal de Charles de Gaulle havia descido a lenha no Brasil em algum momento da história recente. Se não me engano (e normalmente eu me engano), foi ele quem teria afirmado que não somos um país sério. Depois eu pesquisei e mais uma vez confirmei meu equívoco, quem disse a célebre frase "Le Brésil n’est pas um pays sérieux" não foi o estadista francês, e sim o embaixador brasileiro em Paris na época, Carlos Alves de Souz. Quem fez a confusão toda foi a imprensa dos dois países e a bagaça saiu do controle.

8h40 - Enquanto andava pela área de desembarque atrás da minha conexão para Milão percebi que estava sensivelmente atrasado. Que coisa, tanto tempo jogado fora em Garulhos e agora o tempo me era escasso. Mas, tudo bem, a minha cordial agente de viagens me disse que não havia problema nessa conexão, era só descer no Charles de Gaulle, entrar no avião que ia para a Itália e aproveitar as férias tomando todo o Martini que eu conseguisse. Mas quando cheguei ao balcão da Air France e perguntei pelo avião que iria para o país da bota, uma ruiva sorriu e disse num francês frio e impecável: - Senhor, o seu avião para Milão já partiu. O senhor perdeu essa conexão. Essa frase ecoou na minha cabeça: "O senhor perdeu essa conexão... conexão... nexão... ão..." E que horas eu bebo o meu Martini? Pensei.

8h50 - Imagine a cena: Eu, brasileiro matuto, perguntando em espanhol do Fisk, para uma funcionária francesa, sobre um voo de uma companhia italiana que eu acabara de perder e precisava remarcar. Não foi um diálogo no qual Shakespeare se inspiraria, mas ela acabou me dando um cartão impresso com o meu nome e duas fichas. Por Deus! Eram duas fichas que eu não tinha a mínima noção para que serviam. Tinha uma espécie de QR Code nelas, seria para um café grátis? Ou para usar a internet em algum ponto do aeroporto? Ou um cupom de desconto na compra de uma geladeira na Casas Bahia? Eu não sabia, joguei no lixo assim que uma coreana mal-humorada autorizou a minha entrada na sala de embarque para Milão. Seria necessário mais horas de espera.

9h55 - Neste momento eu deveria estar voando para as minhas tão esperadas férias no país em que viveram meus bisavós, imaginando como eram suas vidas naquelas belíssimas regiões produtoras de vinho, contemplando as plantações de uvas, as autoestradas que rasgam a Itália, as pontes da época do Império, os castelos medievais, mas ao invés disso eu estava sentando numa cadeira olhando para uma parede cinza. Nem Paris eu estava aproveitando, a conexão, definitivamente, me desconectou. Pensando bem, bem veadinho este termo "conexão". Na minha terra é baldeação mesmo, igual as que eu pegava lá no Guarantã do Norte, terra do garimpo. Lá o motorista do buzão todo estourado dava um berro e todo mundo caia pra dentro em menos de um minuto. Aqui, a francesa com cara de espanador me diz que eu perdi a conexão e tenho aguardar o próximo voo com um QR Code nas mãos.

14h55 - Tudo pronto para Alitália me tirar daquele lugar. Assim que entrei perguntei ao italiano com jeitão de indiano: - É Boeing ou Airbus? - Airbus, senhor. Um A319 exatamente. Respondeu. - Ufa! Ainda bem que não é um A313! Completei rindo da minha própria piada, mas ele fechou a cara. Não deve ter entendido, muito menos gostado da piada zagaliana. Pelo que entendi, a Alitália é uma Gol metida a besta. O Avião é do tamanho de um aspirador de pó e eles separam por classes para voar por 80 minutos. Pelo menos eles servem cerveja de graça, e isso compensa tudo. Assim que deixamos o imponente CDG com metade dos assentos vazios a aeromoça me perguntou: - Beer? E eu: - Always! Então ela quis saber a marca. Como assim... a marca? - Pensei - Como se ela tivesse todas as marcas do mundo disponíveis ali na prateleira e dissesse: pode pedir que eu tenho, seu brasileiro de merda. Eu deveria ter sacaneado e pedido uma Volcanes, mas fui bonzinho e pedi uma Heineken. E como num passe de mágica ela saca uma lata da cerveja neerlandesa e cala a minha boca pelo resto do voo.

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(Milão)
16h30 - Se eu fosse o prefeito de Milão usaria o seguinte slogan: Se a Itália é Mil, aqui é Milão. Hã? Hã? Hã?... Não?! Ok. Não! Mas é uma cidade nota mil. Limpa, absurdamente organizada, cheia de opções, e tudo isso eu conclui olhando lá de cima, onde é mais fácil ver alguma porcaria. O aeroporto de Linate, um dos dois que existem na cidade, é meio esculhambadão, mas nada que prejudique. Assim que chegamos tivemos uma recepção tipicamente italiana. Minha namorada esbarrou em uma senhora de 70 anos e ela expeliu aproximadamente 30 palavrões a plenos pulmões. Eu pude notar uma veia do seu pescoço saltando enquanto ela berrava. Não entendemos nenhum daqueles calões, mas deu pra sacar que não é uma boa ideia sair esbarrando nas pessoas naquele país. Malas no carrinho e o cansaço extremo nos obrigou a pedir um táxi - 60 Euros com Mastercard. De ônibus dava pra ir por menos de 15, mas quando vi que não era apenas um táxi, e sim um Mercedes Classe E, os 60 euros se tornaram 60 reais. Fui de táxi, se sabe.

17h05 - O hotel no centro da cidade foi uma cagada. Fiz as reservas pela internet já imaginando o pior. Ou ninguém saberia de nada quando ou chegasse ou as fotos do anúncio eram fakes e eu morreria afogado nos ácaros. Nenhum, nem outro. O Bestern Western Felice Casati é um hotel de primeira, impecável, fenomenal, magnífico, se deixassem, moraria lá pelo resto da vida - apesar dos quase 500 euros por seis míseras noites. Um rápido banho e o ímpeto por explorar as redondezas me fez rumar para o primeiro ponto turístico da Europa minutos após a minha chegada. O Giardini Pubblici Indro Montanelli é um parque histórico urbano de Milão onde está o Museu de História Natural da cidade, fundada em 1838. É um dos mais importantes museus de história natural da Europa. E sim, eu copiei isso do Wikipédia. A foto ao lado mostra bem a minha empolgação diante das novidades.

20h30 - Eu ainda caminhava pelo cartão postal disfarçado de parque quando percebi que tinha algo errado com o mundo. Eram quase nove horas da noite e ainda estava claro, como era possível? Nem no Guarantão veio de guerra anoitecia tão tarde, então pensei: ou aquilo era uma espécie de ilha de Lost ou aquela aeromoça colocou alguma coisa na minha Heineken. Claro que no ápice da minha ignorância geográfica eu não tinha imaginado que estava em outro hemisfério, e por isso a minha posição em relação ao sol era outra. Por isso os dias eram mais longos. Estúpido! Deveria comer para deixar de pensar em tanta asneira.

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21h05 - É claro que eu não lembro o nome do restaurante, é para isso existe o Google Maps. Lá eu descobri que comemos no Ristoranti Lucca, rua Panfilo Castaldi, nº 33, Cep 20124. Uma pizza napolitana acompanhado de vinho tinto da Toscana para quem adivinhar o que eu pedi. Sempre tive toda a curiosidade do mundo para saber se na Itália comia-se tão bem assim, e esses malditos livros do John Grisham só aumentavam o meu interesse. Pois naquela noite eu descobri que toda a fama não era a toa, a culinária italiana é, de fato, tudo isso e mais um pouco. Risquei mais um item da minha Lista da Bota justamente no País da Bota.

(Continua no próximo capítulo (sempre quis dizer isso)).

1 comentários:

Simone Magalhães disse...

Você é meu Machado de Assis em carne, osso e vida! Ótimos textos. Estou adorando!