terça-feira, 16 de agosto de 2011

Diário de viagem | As aventuras de um publicitário disfarçado de turista


(São Paulo) 04/08
7h15 - Uma das 37 grandes desvantagens de não se morar no Eixo Rio-SP é ter que acordar cedo para pegar conexão para um voo internacional. E quando eu digo acordar cedo, me refiro a quase não dormir. Naquela terça-feira cinza-azulada de inverno eu acordei absurdamente cedo em Cuiabá para chegar apenas cedo em São Paulo e esperar mais de nove horas no aeroporto de Guarulhos para finalmente rumar para o nortão desse mundo veio de guerra (acho que faltaram algumas vírgulas nesta última frase, de qualquer forma, aqui estão elas ',,,,,,,', distribua como achar melhor.) Mas como ia dizendo, quando você precisa esperar por algo que vai demorar muito, não importa o que faça, o tempo vai praticamente parar. Ele vai olhar para você e sussurrar ao pé do ouvido: "continue esperando, seu mané". Só me restou sentar e esperar, esperar e esperar.

16h15 - Duas revistinhas de palavras-cruzadas Coquetel, três capítulos do livro "E nós chegamos ao fim", um novo recorde no Tetris do meu celular e quatros capuccinos depois, o voo número 455 da Air France deu as caras no imenso monitor à minha frente. Era hora de começar a minha tão esperada viagem pelo Velho Mundo (não entendo bem este termo, se a Europa tem a mesma idade de todos os outros continentes, porque diabo a chamam de Velho Mundo?). Os dois anos de planejamento terminaram quando a voz em off meio anasalada dizia: "Atenção passageiros Air France com destino a Milão, o embarque está sendo efetuado pelo portão 13 - repetindo: - Atenção passageiros Air France com destino a Milão, o embarque está sendo efetuado pelo portão 13 (...)". Não era um bom número para se começar uma viagem daquelas, mas como bom sagitariano com ascendente em Leão acho uma grande bobagem essas superstições e numerologias. Afinal de contas, com 24 meses de árduo planejamento, o que poderia dar errado?

16h30 - Com um enorme sorriso na cara adentrei a máquina voadora da empresa francesa. Logo após o degrau de delimitava a terra firma do interior da aeronave eu tive o meu primeiro contato com o idioma de Napoleão Bonaparte: - Bon jour! - Bon jour! É Boeing ou Airbus? Perguntei em bom português dirigindo-me ao chefe de cabine. (Não importa a situação, sempre faço essa pergunta quando entro em um avião, mesmo que uma 3ª opção de fabricante se faça provável). - É um Boeing! Respondeu Richard claramente surpreso com aquela pergunta inusitada e igualmente babaca. A propósito, um nome bem francês, o tal de Richard. Seus 40 e poucos anos e um enorme esforço em recepcionar bem os demais viajantes me fez chegar à primeira boa impressão da Air France. A segunda veio quando passei pelas primeiras poltronas do Boeing 777-300, eram senhoras poltronas, com um espaço entre elas que eu jamais vira em anos de voos domésticos. Então pensei controlando minha excitação: que maravilha vai ser essa voyage. Mas em poucos segundos voltei a me sentir babaca porque ali claramente era a primeira classe, a mesma classe na qual eu teria que pagar o dobro caso optasse por ela diante de minha agente de viagens. Dane-se a primeira classe, vamos nos embrenhar mais para o fundão e ver o que temos. Pensava enquanto caminhava entre os amplos monitores individuais de plasma.

16h35 - A poltrona 26E (26 = 13+13) estava lá, a minha espera para quase 13 horas de travessia. Não era tão espaçosa quanto as anteriores, mas tinha lá o seu conforto. O que matou mesmo foi o fato de estar exatamente no centro da fileira, tornando impossível qualquer intenção de espiar o que se passava lá embaixo através da janelinha. Logo eu, que queria tanto ver a península ibérica lá de cima. Paciência! Que venha Milão.
"Q-u-e-v-e-n-h-a-M-i-l-ã-o" = 13 letras.

(Continua no próximo episódio, digo, post).

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