quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Quem mexeu no meu texto? O dono dele.

O redator publicitário não é dono do texto que escreve, mas deve saber defendê–lo dos pitacos do cliente, que nem sempre tem razão. Defesa com embasamento tem mais credibilidade.

Por Adriana Baggio

Você imagina que H. G. Wells, autor do clássico "A guerra dos mundos", possa ter tido preocupações mesquinhas como pessoas mexendo em seus escritos? Difícil, mas provável. Foi ele quem disse que “nenhuma paixão no mundo é comparável à paixão por alterar os textos de outra pessoa”. Até parece que ele era publicitário e estava fazendo piada sobre o cliente durante um happy hour com o pessoal da agência.

Esse vício incontrolável por mexer no texto alheio faz parte das características básicas da maior parte dos clientes. Eles não resistem a tirar ou colocar um adjetivo; trocar por um sinônimo pobre a palavra perfeita que você demorou horas procurando; inserir um clichê no texto que você lapidou com todo o cuidado.

Peraí: texto alheio? Mas o texto é do cliente!

Bem, a gente até entende que Wells tenha se sentido ofendido quando algum editor quis mexer em suas histórias. Afinal, a obra de um escritor é autoral, a razão dela se encerra no próprio texto. Diferente de um anúncio publicitário, onde o texto é parte de um todo, e a razão desse todo não está em si mesmo, mas nos objetivos pré–determinados que deve ajudar a alcançar.

Por mais que o seu nome, redator, esteja nos melhores anuários de criação, a grande maioria dos leitores do texto que você escreveu para um anúncio nunca vai saber que o autor daquela brilhante sacada é você. Sua assinatura não vai aparecer. No máximo, a assinatura da agência. Mas o grande “autor” daquele texto é o anunciante. É quase como se o redator fosse um ghost writer. O cliente paga para você escrever o que ele vai dizer ao consumidor.

Essa é a realidade, às vezes meio dura de engolir. Os redatores publicitários têm uma relação umbilical com seus textos. Normalmente, porque são apaixonados pelo que fazem. Algumas vezes, porque o ego se materializa na escrita. Não importa o motivo dessa relação. Qualquer pitaco de cliente na cria dos redatores dói como ataque à integridade de um rebento.

É preciso reconhecer que, algumas vezes, o cliente tem razão. Em outras, porém, os pitacos podem parecer pura implicância ou um desejo irresistível de dar o toquezinho dele no texto. Quando esses palpites não agregam nada e até prejudicam a peça, é preciso tentar contê–los. Essa é uma tarefa do atendimento no momento da apresentação, mas também do redator ao embasar e defender sua criação.

O cliente precisa confiar nos criativos que trabalham para a sua conta. E confiança se conquista com embasamento técnico, quando a gente mostra que sabe o que está fazendo. O perfil do criativo pirado, viajandão, que defende qualquer ideia com expressões como “é uma grande sacada, você não tá vendo?”, está em extinção. É preciso compreender o negócio do cliente, ter noções de marketing e, principalmente, entender tudo da matéria–prima das suas criações: a língua.

Bons redatores sabem que se aprende a escrever lendo. Lendo de tudo, de bula de remédio a tratados filosóficos. É nas leituras que nada têm a ver com publicidade que aparecem as técnicas que utilizamos no texto publicitário. A sacadinha genial que você colocou no anúncio provavelmente tem nome, sobrenome e história de família – na literatura, na poética, na semiótica. Conhecer essa “genealogia” das técnicas de redação publicitária faz toda a diferença na hora de elaborar – e defender – um texto.

A defesa criativa com embasamento é sólida e tem muito mais credibilidade. Prova que você sabe do que está falando, que não se trata apenas de uma piração de criativo. Por exemplo: quando se defende um título explicando que foi usada uma metonímia e que essa figura de retórica é ideal naquele caso, porque mostra da melhor maneira o todo através de uma de suas partes (e um anúncio normalmente não tem espaço para apresentar o todo, só partes), entende–se que o criativo tem o conhecimento e a técnica necessários para realizar seu trabalho.

Mas a gente sabe que, na prática, a teoria é outra. Em alguns casos, mesmo que você tenha o mais sólido dos argumentos, seu texto vai ser impiedosamente detonado. Nesta situação, relaxe e faça como os budistas: exercite o desapego.

Escrito por Adriana Baggio
Redatora da RMG Connect e diretora cultural do CCPR.


:: Dica via Twitter de @santocaetano

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2 comentários:

Manuela Moraes disse...

Gostei muito do texto, muito pertinente!
Sou estudante de Publicidade da UFPE (ainda posso ser considerada caloura) e é muito bom ter informações sobre as diversas áreas da Publicidade, já que eu ainda não as conheço muito.

Descobri seu blog há vários meses e o adoro! Vim aqui pesquisar peças publicitárias para fazer meu artigo científico e acho que utilizei 2 ou 3 que você postou, Luciano. Obrigada!

Beijo. :*

Luciano Marino disse...

Olá Manuela,

Que bom que meu blog tem ajudado. Fique a vontade para citá-lo em seus trabalhos sempre que precisar. A propósito, a partir de janeiro teremos novidades por aqui. Estou escrevendo os posts para uma nova categoria que irá catalogar os novos conceitos da Internet 2.0. O foco é exatamente os estudantes de comunicação. Espero que seja útil.
Um abraço!