domingo, 25 de março de 2007

Como você conseguiu sobreviver à sua infância?

Hoje eu vou fazer uma coisa diferente por aqui. Ao invés de comentar uma peça publicitária como de costume, vou tentar explicar na visão de um publicitário no Brasil o conceito de segurança que evoluiu-se muito ao longo dos anos. É bem sabido por todos que nós, brasileiros, fazemos marketing há muito pouco tempo (comparando-se com Estados Unidos e Europa). E também é bem sabido por grande parte da comunidade de marqueteiros, que há uma diferença brutal entre necessidade e desejo.

Muito bem, eu vejo com mais coerência a "necessidade" de acordo com Maslow - que trata as necessidades das pessoas baseado num nível hierárquico. Em primeiro lugar vem a Necessidade Fisiológica, depois a Necessidade de Segurança, Necessidade Social (afeto), Necessidades de Status e Estima e por fim Necessidade de Auto-Realização.

O que eu percebo acontecer, e muito, são apelos publicitários que prometem atender as falsas necessidade dos consumidores. Daí vemos aquelas "maravilhosas" chamadas mais ou menos assim: "Você é daqueles que não sabem viver sem um controle remoto universal? Nós temos a solução". É claro que um controle remoto universal tem sua praticidade, mas colocá-lo como uma necessidade de consumo é um pouco demais. Para estes casos, damos o nome de "desejo", simples assim.

O problema é que hoje, tudo o que é desejo, seja de ter uma vida mais off-road ou com capuccino ao invés de café, transformou-se em uma falsa necessidade. Os apelos estão em cima disso e parece que todo mundo esqueceu que é possível viver sem um iPOD que armazena vídeos.

Não estou dizendo que isso é um crime, até porque eu trabalho com isso, só sou contra elevar as coisas a patamares que elas não merecem e se iludir com isso. O problema que é um senso tão comum que não vejo muito progresso nesses conceitos de necessidades que vivemos hoje. Talvez esse seja apenas mais uma consequência da nossa entrada no mundo do marketing.

Agora para exemplificar a coisa toda, vejam essa deliciosa sequência de anúncios dos anos 60 e 70 e me responda como você consegui sobreviver à sua infância. O texto original é de Dejan Trifunovic.
(Clique nas imagens para amplia-las)

Afinal de contas...
Os carros não tinham cintos de segurança, apoios de cabeça, nem air-bag!


Íamos soltos no banco de trás fazendo aquela farra, e isso não era perigoso!

As camas tinham grades e os brinquedos eram multicores com pecinhas que se soltavam ou no mínimo pintados com umas tintas “duvidosas“ contendo chumbo ou outro veneno qualquer.

Não havia travas de segurança nas portas dos carros, chaves nos armários de medicamentos,
detergentes ou químicos domésticos.


A gente andava de bicicleta para lá e pra cá, sem capacete, joelheiras, caneleiras e cotuveleiras.

Bebíamos água de filtro de barro, da torneira, de uma mangueira, ou de uma fonte e não águas minerais em garrafas ditas ¨esterilizadas¨.

Construíamos aqueles famosos carrinhos de rolimã e aqueles que tinham a sorte de morar perto de uma ladeira asfaltada, podiam tentar bater recordes de velocidade e até verificar no meio do caminho que tinham economizado a sola dos sapatos, que eram usados como freios... E estavam descalços...
Depois de alguns acidentes...
Todos os problemas estavam resolvidos!

Íamos brincar na rua com uma única condição: voltar para casa ao anoitecer.
Não havia celulares... E nossos pais não sabiam onde estávamos!
Era incrível!

Tínhamos aulas só de manhã, e íamos almoçar em casa.
Quando tinhamos piolho usavamos Neocide em pó.


Braço no gessos, dentes partidos, joelhos ralados, cabeça lascada. Alguém se queixava disso?
Todos tinham razão, menos nós...

Comíamos doces à vontade, pão com manteiga, bebidas com o (perigoso) açúcar. Não se falava de obesidade, brincávamos sempre na rua e éramos super ativos...

Dividíamos com nossos amigos uma Tubaína comprada naquela vendinha da esquina, gole a gole e nunca ninguém morreu por isso...

Nada de Playstations, Nintendo 64, X boxes, jogos de vídeo, internet por satélite, vídeo cassete e DVD Dolby surround, celular com câmera, computador, chats na internet. Só amigos.

Quem não teve um cachorro Rin Tin Tin?
Nada de ração. Comiam a mesma comida que nós (muitas vezes os restos), e sem problema algum!
Banho quente? Xampú?
Que nada! No quintal, um segurava o cão e o outro com a mangueira (fria) ia jogando água e esfregando-o com (acreditem se quiserem) sabão (em barra) de lavar roupa!
Algum cachorro morreu ou adoeceu por causa disso?
A pé ou de bicicleta, íamos à casa dos nossos amigos, mesmo que morassem a kms de nossa casa, entrávamos sem bater e íamos brincar.

É verdade! Lá fora, nesse mundo cinzento e sem segurança! Como era possível? Jogávamos futebol na rua, com a trave sinalizada por duas pedras, e mesmo que não fossemos escalados... ninguém ficava frustrado e nem era o “FIM DO MUNDO“!

Na escola tinha bons e maus alunos. Uns passavam e outros eram reprovados. Ninguém ia por isso a um psicólogo ou psicoterapeuta. Não havia a moda dos superdotados, nem se falava em dislexia, problemas de concentração, hiperatividade. Quem não passava, simplesmente repetia de ano e tentava de novo no ano seguinte!

As nossas festas eram animadas por radiolas com agulhas de diamantes deslizando sobre os discos de venil, luz negra e um delicioso coquetel feito de groselha e maçã em cubinhos

Tínhamos: Liberdade, fracassos, sucessos e deveres... e aprendíamos a lidar com cada um deles!

A única verdadeira questão é: como a gente conseguiu sobreviver?

E acima de tudo, como conseguimos desenvolver a nossa personalidade?

6 comentários:

presidente disse...

Acredito que esta confusão entre necessidade e desejo seja fruto do capitalismo, da cultura de massa e da influencia que a mídia- principalmente a televisão- exerce sobre a sociedade. O filme "1,99" de Marcelo Masagão discute justamente isso, o consumismo, a forma de como as mercadorias trazem "valores" embutidos. O que vale não é o produto em si, mas sim o que ele representa.
Caso não tenah assistido ainda, recomendo.

Adorei o teu blog, vou "linka-lo" ao meu. O texto de Trifunovic é maravilhoso e nos faz refletir sobre os tempos atuais.

Parabéns e sucesso.
Abraço.

ftumelero disse...

Oi .. venho acompanhando seu blog desde o mês passado mas somente hoje resolvi comentar, acho muito legal os post's e como você relaciona a publicidade com a sociedade, este texto de Trifunovic é muito bom e a relação que você fez também.
abraços.

ZigBr.com disse...

OLA!
Parabens!
Gostaria de convidalos para participar
do nosso portal www.zigbr.com coloquem
materias ,classificados,coloquem seus links
ficaremos muito felizes com vossa participação obrigado

thales disse...

seçao nostalgia..rsrs..muito bom o post, so peças de reliquia.rs

abraço

Thales

Blog Incrivel: http://publicidadebr.wordpress.com

adolfo® disse...

Adorei esse post. Conheci pouco dos produtos dos anos 80... :p

Em relação a Maslow, foi materia da minha ultima aula de psicologia.

Vlw pela revisão.

camis disse...

Adorei o post! Está tudo tão saturado que às vezes ficamos perdidos e as coisa simples ficam pra trás. E muita vezes a necessidade de auto-realização vem antes da necessidade social. Posso te linkar? abraços